Artigo Scheila Pedroso: Assistência social, habitação e oportunidades: uma agenda para enfrentar a pobreza
Por Scheila Pedroso
Falar sobre erradicação da pobreza exige compreender que a vulnerabilidade social não se resume à falta de renda. Ela também aparece quando uma família não tem moradia adequada, quando uma mãe precisa conciliar o trabalho com o cuidado dos filhos ou quando a falta de oportunidades impede alguém de construir uma vida com mais segurança e autonomia.
O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, celebrado em 17 de outubro, nos convida a refletir sobre essas realidades e sobre a responsabilidade do poder público na construção de soluções permanentes.
Ao longo da minha trajetória na gestão pública, especialmente à frente da Secretaria de Assistência Social, Trabalho e Habitação de Sinop, entre 2021 e 2024, acompanhei de perto as dificuldades enfrentadas por muitas famílias. Essa experiência me ensinou que enfrentar a pobreza exige conhecimento da realidade local, planejamento e capacidade de transformar programas e recursos em resultados concretos.
A assistência social tem papel fundamental nesse processo. É por meio dela que muitas famílias encontram acolhimento, orientação, acesso a benefícios e acompanhamento para enfrentar situações de vulnerabilidade. A superação da pobreza, porém, também depende de políticas articuladas de educação, saúde, habitação, qualificação profissional e geração de renda.
Uma família pode precisar de um benefício para garantir a alimentação naquele momento, mas também necessitar de apoio para conseguir emprego, qualificar-se profissionalmente ou conquistar uma moradia própria. Cada situação exige uma resposta adequada, e a gestão pública precisa conhecer as pessoas que atende para identificar suas necessidades e acompanhar os resultados das ações realizadas.
Essa compreensão esteve presente no trabalho desenvolvido em Sinop. Na área habitacional, a retomada do Residencial Nico Baracat possibilitou a entrega de 1.440 apartamentos, garantindo a milhares de pessoas a oportunidade de conquistar a casa própria e construir uma vida com mais estabilidade.
A moradia tem papel importante no enfrentamento da pobreza porque interfere diretamente no orçamento e nas condições de vida das famílias. Quem compromete uma parcela significativa da renda com aluguel enfrenta mais dificuldades para custear alimentação, transporte, educação e outras despesas essenciais. Por isso, a política habitacional precisa considerar também a infraestrutura, o acesso aos serviços públicos e as condições de vida nos bairros.
Essa relação entre moradia e dignidade também está presente no debate internacional. Em 2026, o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza destaca a importância da moradia segura para todos, reforçando que a falta de habitação adequada pode aprofundar a exclusão e dificultar o acesso a outros direitos fundamentais.
Essa perspectiva precisa orientar as decisões dos municípios. O crescimento urbano, a oferta de habitação de interesse social e a organização dos serviços públicos devem ser planejados de forma integrada. Entregar uma unidade habitacional é uma etapa importante, mas é necessário garantir que as famílias tenham acesso a oportunidades e condições adequadas para viver naquele território.
Também precisamos reconhecer que a pobreza não atinge todas as pessoas da mesma maneira. Mulheres que sustentam sozinhas seus lares, famílias com crianças pequenas, pessoas com deficiência e cidadãos que enfrentam dificuldades para ingressar no mercado de trabalho podem precisar de estratégias específicas. Políticas públicas eficientes consideram essas diferenças e organizam o atendimento de acordo com as necessidades de cada realidade.
Na gestão pública, aprendi que a qualidade de uma política não deve ser medida somente pelo volume de recursos aplicados ou pelo número de atendimentos realizados. Esses indicadores são importantes, mas é necessário avaliar o que mudou na vida de quem recebeu aquele atendimento. Identificar falhas, corrigir caminhos e dar continuidade às iniciativas que apresentam resultados também fazem parte da responsabilidade de quem administra.
O Brasil registrou avanços recentes no enfrentamento da pobreza. Segundo dados do IBGE divulgados em dezembro de 2025, a proporção de pessoas na pobreza caiu de 27,3% para 23,1% entre 2023 e 2024. No mesmo período, a extrema pobreza recuou de 4,4% para 3,5%. Apesar desses resultados, as desigualdades persistem e continuam exigindo políticas consistentes.
A redução da pobreza não é responsabilidade exclusiva de uma secretaria ou de uma única esfera de governo. União, estados e municípios precisam atuar de forma coordenada, com planejamento, financiamento adequado e acompanhamento dos resultados. A proteção social deve atender quem enfrenta necessidades imediatas, enquanto outras políticas precisam ampliar as condições para que as famílias conquistem autonomia e melhores oportunidades.
A experiência na gestão pública reforçou minha convicção de que os resultados mais importantes são aqueles que permanecem na vida das pessoas. Uma família que conquista sua moradia, alguém que encontra uma oportunidade de trabalho ou uma pessoa que consegue acessar um serviço essencial passa a ter novas condições para organizar a própria vida.
No Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, precisamos renovar o compromisso com políticas públicas capazes de enfrentar as causas da vulnerabilidade e ampliar o acesso a direitos. Isso exige planejamento, integração entre diferentes áreas e disposição para aperfeiçoar as ações sempre que necessário.
Garantir dignidade significa criar condições concretas para que as pessoas exerçam seus direitos e construam suas próprias possibilidades. Esse compromisso precisa estar presente durante todo o ano, nas decisões e nas prioridades de quem trabalha para melhorar a vida das famílias.

===