Diretor do FBI lança mistério sobre atentado contra Donald Trump

O bom desempenho de Kamala nos debates é um de seus principais atributos. Ela protagonizou cenas memoráveis, como quando deixou sem palavras o juiz Brett Kavanaugh, nomeado por Trump à Suprema Corte americana. “Consegue pensar em alguma lei que dê ao governo o poder de tomar decisões sobre o corpo masculino?”, questionou.
A defesa do aborto é, aliás, uma de suas principais bandeiras. “Nós, que acreditamos na liberdade reprodutiva, impediremos as proibições extremas do aborto impostas por Donald Trump — porque confiamos nas mulheres para tomarem decisões sobre os seus corpos”, discursou. E apontou: “Quando o Congresso aprovar uma lei para restaurar as liberdades reprodutivas, como presidente, eu a sancionarei”.
Com uma maioria conservadora formada com a ajuda de Trump, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou, em 2022, uma decisão de 1973, conhecida como Roe v. Wade, que reconheceu o direito constitucional ao aborto e o legalizou em todo o país. Por 6 votos a 3, os juízes da Suprema Corte mantiveram uma lei do Mississippi apoiada pelos republicanos que proíbe o aborto após 15 semanas de gestação. Agora, a questão é local. Cada estado americano poderá adotar as próprias regras, inclusive, proibindo totalmente o aborto. Nesse embate, Kamala tem o apoio até de mulheres republicanas. A maioria do eleitorado feminino americano é favorável à liberdade de decisão das mulheres pelo aborto, segundo pesquisas divulgadas nos Estados Unidos.
Mulher negra descendente de imigrantes, favorável ao aborto e a restrições ao acesso a armas, Kamala Harris é a própria antítese do adversário, Donald Trump. A mãe de Kamala, Shyamala Gopalan Harris, nasceu na Índia e imigrou para os Estados Unidos aos 19 anos em busca de aprofundamento nos estudos na área de saúde. Tornou-se uma referência em estudos sobre câncer de mama. Uma inspiração para a filha. O pai de Kamala, Donald Harris, é jamaicano e se mudou para a Califórnia para estudar economia na Universidade de Berkeley. Hoje é professor emérito na Universidade de Stanford.
Kamala Harris está longe de ser a imigrante negra que passou dificuldades para estudar e obter sucesso. Ela teve apoio e estudou em boas escolas nos Estados Unidos e no Canadá. Mas nem por isso sua trajetória de obstinação pode ser menosprezada. Ela foi a primeira mulher a assumir a procuradoria-geral da California. Foi a primeira vice-presidente dos Estados Unidos. Elegeu-se para esse cargo ao lado de Joe Biden exatos 100 anos após a entrada em vigor da 19ª Emenda da Constituição norte-americana, que garantiu o direito a votos de mulheres. Agora tem a possibilidade de inaugurar o título de “madam president”.
A democrata disputou a primeira eleição aos 38 anos, para procuradoria-geral de São Francisco. O lema era “a voz de hoje pela justiça”. Prometeu aumentar o número de ações penais por violência doméstica e reduzir o tráfico de crianças. Na defesa da infância, Kamala foi radical. Ela defendeu a aprovação de uma lei estabelecendo que pais pudessem ser acusados de crimes e serem presos se os filhos matriculados nos ensinos fundamental e médio deixassem de frequentar as aulas. A pena podia ser uma multa de dois mil dólares ou um ano de cadeia. Até hoje a lei está em vigor, embora seja menos adotada em ações impetradas por procuradores da Califórnia.
Uma das batalhas de Kamala no Ministério Público envolveu interesses financeiros poderosos. Em suas contas nas redes sociais, ela falou sobre sua atuação na crise das hipotecas nos Estados Unidos: “Como procuradora-geral da Califórnia, briguei com os cinco maiores bancos de Wall Street durante a crise financeira. Conseguimos vinte bilhões de dólares para os proprietários de moradias da Califórnia e juntos aprovamos a lei antiexecução hipotecária dos Estados Unidos”.
O rigor de Kamala Harris é motivo de críticas de adversários, assim como a risada acentuada, tripudiada por Trump e alvo de memes. Da mesma forma, o perfil forte e decidido. A provável candidata democrata, como acontece com muitas mulheres no poder, será questionada pelas qualidades e defeitos. É o jogo — muitas vezes sujo — da política. Ela, no entanto, tem vencido obstáculos com frieza e cálculo dos riscos.