Mulheres na Advocacia: entre conquistas, desafios e a missão de transformar a os espaços ocupados
No calendário mundial, o Dia Internacional da Mulher nos convida não apenas à celebração, mas também à reflexão. Trata-se de um momento para reconhecer conquistas históricas, honrar as mulheres que abriram caminhos e, sobretudo, reafirmar o compromisso com os desafios que ainda permanecem.
No universo jurídico, a presença feminina tem se tornado cada vez mais expressiva. A advocacia, que por muitos anos foi um espaço predominantemente masculino, hoje conta com mulheres ocupando posições de destaque nos escritórios, nas instituições e nas salas de aula. Cada advogada que exerce sua profissão com competência e dedicação também representa um passo na consolidação de uma advocacia mais plural, humana e representativa.
Na gestão de ordem também não é diferente: conquistamos espaços de liderança em prol da classe e expressividade feminina nos espaços de decisão, comissões e representatividade, promovendo a transformação através da voz feminina.
“Não ocupamos espaços apenas para estar neles. Ocupamos para transformá-los”.
Entretanto, é importante reconhecer que essa trajetória não foi construída sem obstáculos. Durante décadas, mulheres precisaram superar barreiras estruturais, preconceitos velados e a constante necessidade de provar sua capacidade profissional em ambientes que historicamente não foram pensados para elas.
Ainda hoje, muitas advogadas enfrentam desafios particulares na conciliação entre carreira, família e as inúmeras demandas que socialmente continuam sendo atribuídas apenas às mulheres. A maternidade, o cuidado com os filhos, a gestão do lar e as responsabilidades familiares frequentemente se somam à rotina intensa da advocacia, que exige estudo permanente, dedicação aos clientes e atuação firme na defesa de direitos.
Esse acúmulo de responsabilidades revela uma realidade conhecida por muitas profissionais: a chamada “dupla” ou até “tripla jornada”. Ainda que avanços importantes tenham sido conquistados, a divisão equilibrada das responsabilidades familiares, sociais e profissionais ainda é um desafio presente na vida de muitas mulheres.
No campo profissional, também persistem episódios de discriminação de gênero que, embora cada vez mais debatidos e combatidos, ainda se manifestam de diferentes formas. Seja por meio da subestimação da capacidade técnica das mulheres, pela dificuldade de acesso a determinados espaços de liderança ou por situações de desrespeito em ambientes profissionais, a advocacia feminina ainda enfrenta barreiras que precisam ser superadas.
Ao mesmo tempo em que lutamos por avanços dentro da advocacia, não podemos ignorar uma realidade ainda mais urgente: os elevados índices de violência contra a mulher na sociedade brasileira. A violência doméstica, psicológica, moral e patrimonial ainda atinge milhares de mulheres todos os anos, demonstrando que a proteção da dignidade feminina continua sendo um desafio coletivo.
Nesse cenário, a advocacia tem um papel essencial. Advogadas e advogados atuam diariamente na defesa de vítimas, na garantia de direitos e no fortalecimento dos instrumentos jurídicos destinados à proteção das mulheres. Mais do que operadores do Direito, somos agentes de transformação social.
Cada processo que busca romper ciclos de violência, cada atuação jurídica que assegura proteção a uma mulher em situação de vulnerabilidade e cada debate institucional que fortalece políticas públicas de proteção representam passos importantes na construção de uma sociedade mais justa.
Celebrar o Dia Internacional da Mulher, portanto, não é apenas reconhecer conquistas já alcançadas. É também reafirmar o compromisso com um futuro em que nenhuma mulher precise escolher entre sua carreira e sua dignidade, em que o talento feminino seja reconhecido sem reservas e em que a violência de gênero seja definitivamente superada.
Na advocacia, seguimos avançando. Com coragem, competência e sensibilidade, as mulheres continuam ocupando espaços, liderando transformações e contribuindo para a construção de um Direito mais humano e mais comprometido com a justiça social.
Que esta data sirva como lembrança de tudo o que já conquistamos e como inspiração para continuar lutando por tudo aquilo que ainda precisa ser transformado.
Porque quando uma mulher se levanta para defender o Direito, não é apenas uma voz que se ergue, é a própria justiça que ganha mais força, consciência e humanidade.
Mayara Weirich
Advogada, professora universitária e autora
Vice-presidente 6ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil



