Sinop: delegado diz que donos de oficinas ajudavam ladrões e prevê novas fases da operação
Os delegados Thiago Berger e Lucas Pereira detalharam a atuação do grupo alvo da Operação Módulo Oculto, deflagrada hoje pela Polícia Civil em Sinop. A ação cumpriu 13 mandados de prisão, 14 de busca e apreensão, determinou a suspensão de quatro empresas e bloqueou 22 contas, com valores de até R$ 11 milhões. Também foram sequestrados quatro imóveis e 13 veículos.
Segundo Thiago Berger, a investigação começou no ano passado, após a prisão de alguns suspeitos de furtar módulos eletrônicos de caminhões. “A gente percebeu que essa prática criminosa estava explodindo aqui no município, conseguimos prender alguns furtadores, mas a prisão dos furtadores é uma investigação um pouco mais difícil, porque é uma cidade grande, eles não têm um local específico que eles furtam, eles furtam caminhões pela cidade inteira, inclusive dentro de empresas, eles pulam dentro dos pátios das empresas para realizar esses furtos, então nós concentramos aqui as nossas forças investigativas para identificar os receptadores desses módulos.”
Berger afirmou que quatro empresas foram identificadas como pontos utilizados para receber os módulos furtados e repassá-los para outras pessoas. O delegado classificou a operação como exitosa e afirmou que a ação terá novos desdobramentos. “Então em razão disso, a gente considera que foi uma operação bastante exitosa e já deixo de alerta que essa é apenas a primeira fase, certamente haverá desdobramentos, já foram identificados outros furtadores, outras empresas que estariam recebendo módulos, então eu garanto que essa é apenas a primeira fase, haverá desdobramentos”.
De acordo com o delegado, os levantamentos da DERF apontam que, em média, um módulo é furtado por dia em Sinop. “Então, pelos levantamentos aqui da delegacia, a gente observa uma média de um módulo furtado por dia, então cerca de 30 módulos por mês, em média. A gente não consegue precisar ainda quantos módulos foram encontrados nas empresas, porque os levantamentos ainda estão sendo feitos, mas foram encontrados alguns módulos, o que indica a certeza da investigação, que aponta aí a concretude da autoria e materialidade da prática criminosa dos suspeitos”.
A investigação também identificou que os módulos furtados em Sinop eram enviados para outras cidades e Estados. “Todas as prisões e buscas foram realizadas aqui, porém a investigação apontou que essa facção criminosa, esses indivíduos, estendiam sua atuação para outros municípios, então tinham módulos furtados aqui em Sinop que eram remetidos para outros estados inclusive, muitos módulos encaminhados para Cuiabá, alguns módulos encaminhados para o Pará, até para o estado de Roraima nós identificamos a remessa de módulos”.
Thiago Berger também explicou como os executores escolhiam os caminhões que seriam furtados. Segundo ele, os suspeitos circulavam pela cidade durante o dia e retornavam de madrugada para retirar os módulos. “A gente observou que eles atuavam sempre no mesmo modus operandi. Durante o dia, os furtadores circulavam pela cidade, de moto, identificando caminhões estacionados em pontos específicos da cidade. Então eles estavam sempre em contato, apontando: tem um caminhão em tal lugar, tem um determinado canto. E à noite, de madrugada, por volta de 2, 3 horas da manhã, eles saíam para realizar os furtos desses modos”.
O delegado afirmou ainda que um dos principais receptadores participava diretamente da ação criminosa e ensinava os furtadores a retirar os equipamentos. “Esses donos de oficina, receptadores de módulos, eles atuavam não só receptando, mas um deles, que é o principal, ele inclusive ensinava os furtadores, a como subtrair esses módulos. Ele apontava lá as ferramentas que eles tinham que usar, e por vezes ele até encomendava módulos específicos”.
Outro ponto destacado pelo delegado foi o chamado “resgate”. Os criminosos chegavam a cobrar das próprias vítimas para devolver os módulos furtados. “A gente observou também que, por vezes, as próprias vítimas procuram aqui a DERF relatando a prática dos furtos de módulos, e os furtadores acabavam recebendo resgate das próprias vítimas”. Ele explicou que a vítima procurava uma oficina para comprar um novo módulo e acabava sendo informada de que o próprio equipamento furtado estava com os criminosos. “Entrava em contato com o dono da oficina. Estou precisando comprar um módulo, pois o meu foi furtado. Foi furtado aonde? Ah, em tal lugar. O dono da oficina ligava para o furtador. O furtador, não, esse módulo está comigo. Informava para a vítima quanto ela queria pagar, 5 mil reais, 3 mil reais, e a vítima recomprava o seu próprio módulo dos furtadores.”.
Berger destacou ainda a diferença entre o valor de um módulo novo e os preços praticados pelo grupo. “Um módulo novo na loja custaria R$ 35 a 40 mil, os furtadores vendiam por R$ 3 mil e os receptadores revendiam para outras pessoas por R$ 9 mil”.
O delegado Lucas Pereira destacou que o furto dos módulos exige conhecimento específico de mecânica, já que os criminosos precisam retirar o equipamento sem danificá-lo. “Esse tipo de furto é um tipo de furto que exige um certo conhecimento para poder exercer essa conduta, que é de subtrair o módulo de um caminhão. Para acessar esse módulo, a pessoa tem que ter um certo conhecimento de mecânica para poder subtrair esse módulo sem prejudicar esse produto”.
O delegado afirmou que os suspeitos utilizavam armas para garantir a fuga e como forma de proteção. “Utilizam armas de fogo como forma de, entre aspas, proteção, mas também de garantir a fuga deles. Caso alguma pessoa, o dono desse caminhão, chegue ao local, corre um certo risco, porque essa pessoa vai estar armada”.
Ao final, o delegado reforçou que a Operação Módulo Oculto é apenas a primeira fase e deixou um alerta para empresários que possam estar envolvidos com a comercialização de peças furtadas. “Fica aí o recado a algum dono de oficina que esteja mal-intencionado, com a intenção de praticar esse tipo de conduta, ou que já pratica. Fica aí o recado, nós iremos identificar, essa é apenas a primeira fase, daqui a gente irá desencadear outras, é apenas o começo, e pode ter certeza de que, se tiver algum empresário do ramo, se beneficiando por conta dessa atividade ilícita, ele será responsabilizado criminalmente, e também no setor comercial”.


