Coluna Scheila Pedroso: Para muitas mulheres, ter para onde ir é o começo da liberdade
Por Scheila Pedroso
Quando falamos sobre violência contra a mulher, uma pergunta precisa estar presente no debate público: quantas mulheres desejam sair de uma situação de violência, mas não têm para onde ir?
A resposta passa por uma realidade complexa. Em muitos casos, a violência está associada à dependência financeira, à falta de moradia, à vulnerabilidade social e à responsabilidade pelo cuidado dos filhos. Esses fatores, combinados, podem tornar ainda mais difícil a decisão de romper com o agressor.
Ao longo da minha trajetória na gestão pública, aprendi que os problemas da vida real raramente aparecem de forma isolada. Por isso, enfrentar a violência contra a mulher exige mais do que orientar uma denúncia. É fundamental garantir que, depois desse primeiro passo, exista uma rede capaz de acolher, proteger e oferecer condições reais para a reconstrução da vida.
Neste Agosto Lilás, essa reflexão precisa ultrapassar as campanhas de conscientização e se transformar em políticas públicas permanentes. Uma mulher precisa se sentir segura para pedir ajuda, saber onde encontrar apoio e ter acesso a serviços que considerem sua realidade.
Também precisa de condições para trabalhar, garantir o sustento dos filhos e recomeçar. Muitas vezes, precisa de algo básico e decisivo: um lugar seguro para morar.
A ausência de moradia pode manter mulheres presas a relações violentas. Sem renda, sem apoio familiar e sem uma alternativa habitacional, deixar o agressor pode parecer um risco ainda maior do que permanecer em casa. É nesse ponto que as políticas públicas precisam agir de maneira integrada, conectando segurança, assistência social, saúde, educação, trabalho e habitação.
Combater a violência também é construir autonomia.
É garantir proteção, oportunidade, renda, moradia e dignidade para que nenhuma mulher precise escolher entre permanecer onde sente medo ou partir sem saber para onde ir.
Uma rede de enfrentamento eficiente não pode existir apenas no papel. Ela precisa estar presente nos territórios, ser acessível e oferecer atendimento humanizado. Abrigos, casas de passagem, programas de aluguel social, qualificação profissional e apoio para a inserção no mercado de trabalho podem fazer a diferença entre a dependência e a liberdade.
Agosto é Lilás, mas esse compromisso precisa existir o ano inteiro. Enfrentar a violência contra a mulher é responsabilidade de toda a sociedade — e garantir que ela tenha para onde ir é uma das formas mais concretas de começar a transformar proteção em liberdade.
Scheila Pedroso
Arquiteta, gestora pública e pré-candidata a deputada estadual



